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Uma história de vida.


Publicada em: 24/10/2011 12:50
por: Hélio da Rosa Machado

                   Este site também é cultura.

                  Enquanto não temos matérias específicas que se vinculam às nossas atividades sociais e futebolísticas, quero publicar um conto que tem muito a ver com as nossas classes sociais e com o mundo da atividade informal, já que o desemprego e a pouca instrução de muitos brasileiros, levam-nos a trabalhar em atividades insalubres e desumanas, mas, que na atualidade exigem sérias reflexões dos altos escalãos governamentais, já que a reclicanagem, a meu ver, não é mais um ato dos excluídos socialmente.

                  O conto é um pouco longo, mas tem uma boa mensagem. Vale a pena você dispor um pouquinho do seu tempo para ler a estória,  porque além de relatar o sacrífico de um catador de produtos recicláveis mostra que a pobreza não é sinônimo de indignidade, já que muitos pobres tem vida mais honrada de que muitos ricos que rondam por aí.

 

UM CONTO ACADÊMICO: SACRIFÍCIO É VIDA.

(Hélio da Rosa Machado)

 

Era oportunidade de se provar que as teses de mestrado não são apenas um contexto de linhas apaziguadas no papel.  O escritor, no seu tirocínio e no seu discernimento criativo é capaz de penetrar no vácuo de um cotidiano e descrever episódios sem necessidade de presenciá-los. O pensador não executa; ele só imagina.

 Entretanto, esta proposta não se traduz num escrito onde deva imperar apenas a criação literária. A tese aqui tratada exige que seu autor relate um fato real, já que sua missão é desenvolver a prática de atividades sociais no seu curso de psicologia.

 Assim, não há outro caminho a não ser sair da vida cotidiana constituída de estabilidade financeira, para ingressar em mundo alheio, onde impere os desníveis sociais e as desigualdades que são, costumeiramente, vivenciadas pela maioria da população, especialmente em um país como o nosso onde o desemprego ainda é alarmante.

 É nesse ímpeto de visualizar os dissabores da realidade cotidiana de um desempregado, que o humilde servo da bancada acadêmica, vê-se na contingência de sair da sua redoma social, para vivenciar o sofrimento e as lamúrias de um humilde catador de produtos recicláveis.

 Afinal, um assunto tão em voga, onde os maiores estadistas dedicam parte do seu tempo dedicando-se a projetos que devem proteger o meio ambiente, nada mais salutar do que aprender um pouco da vida daqueles que estão tendo subsistência com aquilo que nossa sociedade joga no lixo.

 Para que isso ocorra, necessário uma estratégia bem planejada, afinal, necessário aproximar-se de pessoa relegada pela sociedade, que vive de restos ou de sobras. Em sã consciência, esse indivíduo não iria aquiescer com a presença diuturna em suas lides de um estranho que se aproximasse, já que não se trata de uma atitude comum.

 Entretanto, lá vinha um homem magro, franzino, com roupas sujas, de olhar enigmático, com passos lentos. Parecia cansado, mas, sua postura não demonstrava desalento. Era alguém muito só na sua caminhada. Entretanto, demonstrava ser obstinado, pois, mesmo tendo um físico raquítico e esquelético, lembrava uma formiguinha carregando uma carga muito superior e mais pesada que o próprio peso.

 O solitário cidadão urbano empurrava um carrinho feito com material reciclável, duas rodas provavelmente de bicicleta davam sustentação e propiciavam a locomoção daquele utensílio de carga. Dentro daquele surrado carrinho tinham sido amontoados muitos objetos sem uso, catados e selecionados na busca diária que transcorreu entre as 04 horas da manhã até ao anoitecer.

 Era um sacrifício a ser enfrentado. Como associar-se àquele homem tão sofrido? Entretanto, era hora de anunciar a pretensão. Não havia outra saída. Era necessário iniciar conversa. Aquele homem, acostumado a se defender das agruras das ruas, não iria facilitar essa conversa. O dinheiro era a saída.  Retirada, então, uma nota de vinte reais que havia no bolso e exibida perante os olhos estatelados daquele homem sofredor.  A resposta veio incontinenti: - Que é isso seu moço? – Não sou nenhum mendigo, estou trabalhando para sustentar minha família! - Não se ofenda, disse o interceptor. E, sem tempo para o homem responder asseverou: - Quero me associar por um dia ao seu negócio!

 Nisso, o homem, já um pouco curioso, foi parando devagar o seu carrinho, deixando-o amparado no meio fio. Foi logo indagando: - O senhor, por acaso, fugiu do hospício? Não, respondeu o seu interlocutor, afirmando em seguida: - Só quero que senhor me escute, pois vou lhe fazer uma proposta!

 Nesse momento, o colóquio já estava amparado numa razão, pois, o homem catador de lixo já começava a acreditar que aquele novato iria lhe propor algo interessante. – Diga, então, seu moço! - balbuciou o catador. Decorreram todas as explicações, com os quais o chegou-se ao convencimento de que as necessidades acadêmicas exigiam-lhe um dia de vigília no trabalhado do catador, para que fosse descrita a ótica das suas dificuldades sociais, bem como, o alcance da sua relação com o mundo urbano.

- O que eu vou ganhar com isso? - perguntou o catador. Não tenho muito para oferecer, disse o proponente, mas, posso lhe compensar com um simbólico valor em dinheiro, além, é claro, de duplicar seu lucro diário, tendo em vista que será mais uma mão que vai lhe ajudar no seu ofício, sendo que todo o material arrecadado ficará sob sua posse.

 Feito o acordo. Faltava combinar a forma em que a dupla iria desenvolver suas atividades. O novo ajudante era bem relacionado, por isso conseguiu arrumar emprestado com uma empresa no ramo do atacado, um carrinho de transporte interno das mercadorias, de peso regular, já que sua fabricação priorizava a utilização de metais leves, facilitando sua locomoção.

 A dupla acordou de madrugada e se encontrou no cetro urbano daquela grande metrópole. Cada um deles carregava seu carrinho. O ajudante não sabia o que lhe esperava e estava muito nervoso, pois, não queria ser reconhecido pelas pessoas do seu círculo, por isso utilizava indumentária que pudesse disfarçá-lo. Um chapéu do tipo mexicano acomodava-se na sua cabeça. Um par de óculos escuro lhe tampava quase todo rosto. Uma calça larga emprestada do seu avô servia-lhe de suporte abaixo do tronco. A camisa era bem estreita, mas, para poder camuflar sua identidade e não despertar curiosidade dos transeuntes exibia uma estampa significativa de um conjunto de rock dos anos 70. O cara parecia um palhaço de circo.  Como a sua intenção era não despertar suspeita, foi o seu traje a primeira coisa que lhe traiu, já que era impossível não ser notado por onda passava. Felizmente, a extravagância do seu traje chama a atenção, mas, em contrapartida não permitiu a exposição da sua identidade.

 Para piorar as coisas, parece que São Pedro não estava a fim de colaborar. Os relâmpagos anunciavam um temporal, já que as nuvens estavam escuras e a luz natural cedia espaço para o cinzento ocaso. O estreante olhava para aquele homem acostumado com as durezas da vida e se perguntava qual seria sua reação. Entretanto, não viu reação alguma; nenhuma sugestão, nenhuma vontade de abrigar-se em algum lugar seguro. Tudo parecia normal. Mas, contrariando aquele ar de segurança, um número incontável de pessoas acelerava os passos ante a iminência da chuva. Não demorou muito e caiu água. Parecia uma cascata ante o barulho e a vastidão dos grossos pingos que açoitavam nossas nucas.

 Em que pese todo aquele aguaceiro percebia-se que o único cuidado que o parceiro de jornada exibia, era a atenção para que o seu carrinho não deslizasse nas enxurradas. Aquele homem impassível sequer se preocupava com a inexperiência do novel ajudante, afinal, fora ele quem havia proposto ajudar-lhe. Era necessário deixá-lo à própria sorte, pois, caso essa proximidade fosse um embuste, a contingência das dificuldades iria desencorajá-lo.

 O alienígena não demonstrava desânimo, insistia em seguir o catador. Abaixo de uma chuva torrencial dirigiam-se rumo a um grande comércio local. Tratava-se de uma construção do século passado, erguida com uma arquitetura indefinida, mas, que causava espanto aos seus primeiros visitantes, ante alguns desenhos imperfeitos que se misturavam com sujeira e velhice. O fato é que era ali, naquele local, que a dupla iria encher os cinqüenta por cento dos seus inóspitos carrinhos. Tudo parecia sintonizado e cronometrado.  As pessoas, apesar de demonstrarem que não tinham apreço pelo coletor de objetos recicláveis, viam nele uma necessidade, por isso só lhe dirigiam a palavra pra dizer que tinham juntado ‘suas relíquias’ nos locais de sempre. Eram nos becos e nos cantinhos apertadíssimos das edificações que ficavam depositados os bens preciosos do catador.

Era um entrevero de cata e escolhe. O ajudante não havia imaginado essa dificuldade. Para ele bastava juntar as coisas no carrinho. Assim, o trabalho era mais doloroso do que pensava. As pessoas não tinham o mínimo de respeito quanto às preferências do catador. Deixavam tudo misturado, às vezes, junto às impurezas do lixo orgânico e, era nojento separar determinados utensílios, que estavam misturados com vermes.

 Um cidadão ordinário e de silhueta sisuda.   Alguém desgostoso com a vida humilhava o catador, comparando-o aos ratos, eis que quando a dupla chegou naquela espelunca, onde se vendia bugigangas de diversas naturezas, este balbuciou: - Lá vem aquele rato do lixo, infestar meus produtos com seu cheiro de gambá! Continuava: - Arrumou mais um arruaceiro da raça dos caninos, para mexer em lixo e emporcalhar os sacos que deposito na rua?

 Mas, para a felicidade dos infortunados catadores, nem todas as pessoas eram tão mal educadas, eis que um senhor de boa idade, que se dedicava ao ramo de armarinhos em geral, era o mais atencioso e talvez o único que separava as coisas que interessavam aos catadores.  Esse homem, talvez visualizando o sacrifício daqueles pobres catadores de lixo, reservava algumas moedas durante o meio dia para que aquele os servos da pobreza pudessem se alimentar. Nesse dia, como havia mais uma boca para comer, o afortunado homem não se fez de cego ante a presença do novo catador. Simplesmente, agradeceu a Deus por ter oferecido mais duas mãos no trabalho daquele antigo coletor e, sem pestanejar redobrou a doação das moedas.

 Finalmente, lá pelas dezesseis horas vespertinas depois dos pés do ajudante estar dando câimbra e suas mãos estarem tão machucadas que pareciam que queimavam ao tocarem a haste por onde era envidado esforço para a locomoção daquele carrinho.  O antigo catador, nesse momento não mais duvidava da realidade do esforço daquele parceiro. Viu que não era blefe a sua disposição de reviver seus passos. Durante o último descanso revelou, porém, que o mais difícil ainda estava por acontecer, já que seu local de depósito de tais objetos recicláveis distava por volta de uns 10 quilômetros ao sul.

O novo ajudante teve de redobrar suas forças. Não tinha percebido, entretanto, em face das suas perambulações, tarefas de seleção e carregamento da mercadoria, que a ida era a que reservava as partes íngremes do trajeto. A volta, naquele momento, estava mostrando que seria possível chegar ao destino, apesar do cansaço, já que a força da gravidade estava ajudando a fazer todo o trajeto.

 Depois de mais ou menos uma hora, surgiu uma turminha constituída de jovens entre oito a quinze anos, em número de cinco pessoas, que, ao verem de longe a chegada do catador, correram em direção à dupla para ajudaram a conduzir os carrinhos.

O novo ajudante espantou-se quando chegou à residência de seu parceiro de jornada. Achava que chegaria a um barraco, desses de favela, onde as paredes quase não resistem de pé, em face do desleixo do tempo e da falta de manutenção. Ledo engano! Essa foi a parte mais interessante e mais digna da jornada daquele alienígena da catação de lixo. Não era uma casa construída às mãos ligeiras e sem preocupação com sua segurança, como são os barracos de tábuas que se misturam com bagunça e sujeira. Era uma casa de alvenaria bem construída, rebocada, ainda sem pintura, mas, tudo indicando que era projeto do catador pintá-la quando fosse possível.

Um pátio enorme bem organizado, com cada coisa no seu lugar, sendo certo que os objetos recicláveis demonstravam uma ordem resoluta, como se ali fosse uma fábrica e não um local de abrigo de coisas rejeitadas pela sociedade. Todos os móveis que ali se viam tinham um toque especial da esposa do nosso personagem. Eram feitos de material recicláveis, mas, denotavam uma arte inquestionável, pois, seus traços e seus acabamentos pareciam algo produzido em indústria e não por mãos tão calejadas.

O imenso pátio ainda era dividido por um vistoso pomar, onde se viam árvores frutíferas de diversas naturezas, como laranjeira, limeira, limoeiro, cajus, jabuticabas, mangueiras, goiabeiras e muitas outras que um olhar fugaz não é capaz de absorver com presteza.

Os meninos e as meninas trajavam roupas simples, mas, limpinhas como se tivessem se vestindo para ir à igreja. O visitante não queria ser indiscreto e pedir para adentrar àquela residência, mas, era necessário em face da natureza da sua visita.

Aí, mais uma razão para sua perplexidade. Encontrou quartos das crianças divididos em alas femininas e masculinas. Com beliches suficientes para abrigar a todos da família. Detalhe: mais trabalho artesanal, desta feita, obra do casal, pois o coletor de objetos recicláveis confessou que um dia teve o ofício de marceneiro, cuja profissão teve de deixar em face da carestia da matéria prima. Assim, a esposa confeccionava os artefatos minúsculos depositados em cima dos móveis. Os armários, guarda-roupas, cômodas, com sobras de madeiras, mas, muito bem lapidados, eram as obras do dono da casa.

A ausência de utensílios eletrônicos também causou espanto em face de serem comuns em todos os lares. Evidente, depois de retornar à realidade, o visitante percebeu que são objetos caros e a família fazia opção pelas coisas que eles próprios eram capazes de produzir. Televisão, DVD, micro-ondas e outros eram coisas desnecessárias naquela residência.  Foram vistos muitos brinquedos construídos pelas próprias mãos daquele pai.  O único eletrônico que ali tinha serventia era uma geladeira, um tanto quanto desgastada pelo tempo, mas, que, ao que parece, era suficiente para preservar os alimentos daquela família.

O novato percebeu que estava no meio de pessoas extremamente confiáveis e que ali imperava a paz e o respeito pelo semelhante. Foi convidado para o jantar e foi-lhe servido peixe frito deixando o alienígena a imaginar qual seria a origem de tal prato. A proximidade da noite não lhe permitiu enxergar um açude que havia nos fundos daquele imóvel que deveria ter uma área de mais ou menos um hectare. Era ali que nosso amigo coletor havia depositado, alguns anos atrás, alguns alevinos, filhotes do peixe, que conhecemos como tilápia. Ele havia sido presenteado, uns quatro anos atrás, com cerca de mil alevinos doados por uma instituição de caridade. Contou ele que aqueles minúsculos exemplares se adaptaram, multiplicaram-se no local e jamais houve escassez.

A área daquela residência foi doada em comodato pela municipalidade, com cláusula de risco, caso o ocupante não construísse ou não devolvesse no imóvel em condições mínimas e louváveis de moradia, não teria direito a receber escritura definitiva. Contou o catador, com muito orgulho, de que ele, foi o único na vizinhança a receber escritura definitiva, por ter trabalhado o imóvel no sentido de dar moradia digna para sua família.

O visitante estava tão deslumbrado com o achado, que não queria ir embora sem antes conhecer com mais tempo todos os costumes daquela família. Pensou que seria maravilhoso esticar as horas para ir dormir, para ouvir todas as histórias que aquele experiente homem poderia lhe relatar por horas a fio. Esqueceu-se, porém, que se tratava de um trabalhador que devia ir dormir no porvir da noite para poder descansar o suficiente para enfrentar o outro dia de labuta, pois, já não mais teria quem o ajudasse. Aliás, temia que um dia tudo ficasse mais difícil, pois, a idade chegava e não era sua pretensão levar os filhos para ajudá-lo, eis que seu sonho era vê-los estudando, para que não tivessem um futuro tão pesaroso quanto o dele. 

Era hora da despedida. O parceiro de única jornada tinha ensinado, em um único dia, quase todas as lições de vida. Dificuldade, perseverança, amor, integração com a família, educação, disciplina, organização e o mais salutar: dignidade humana.

Aprendeu o aspirante a doutorado, que são as coisas mais simples e mais sofridas que nos mostram a realidade mais profunda da existência. Viu que a as pessoas são o que elas plantam. Quem semeia sacrifício e trabalho está ensinando para sua geração que a vida não se ganha com parcimônia e com ostentação, mas, através da luta diária por objetivos. Quem é pobre um dia, pode tornar-se rico no amanhã, sob dois aspectos: com a certeza de que adquiriu riqueza interior e, por conseqüência, com o suporte de poder usufruir suas posses partilhando, ajudando e distribuindo oportunidades, para que todos aqueles que necessitam do seu apoio material e espiritual, também possam crescer um dia, caso tenham a vocação para o trabalho.

A tese daquele acadêmico foi a mais elogiada e a mais aplaudida no dia da sua formatura. Mas, ele, no íntimo, sabia que estava sendo aplaudido pela sua coragem de ter ido buscar um exemplo na fonte do sacrifício. Quisera ele, que algumas pessoas presentes tivessem noção da grandeza do caráter daquele nobre catador que lhe ensinou tudo que muitas pessoas levam uma vida inteira e nada aprendem. Sua maior satisfação seria o reconhecimento emprestado àquele cidadão tão humilde, mas, ao mesmo tempo, tão poderoso, no campo da espiritualização.

Em face dessa angústia, aquele homenageado muniu-se, mais uma vez, de límpida coragem, apontando para um ponto do teatro onde se encontrava despercebido seu amigo catador e, com voz embargada, pediu a todos que o aplaudissem, com a ressalva de que aquele ser Divino havia lhe ensinado a lutar pela vida.

   FIM

 



Imagens

Respeitem as carroçinhas, pois elas trazem em seu conteúdo uma lição de vida.

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