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Ainda falando do interior.


Publicada em: 18/04/2012 13:55
por: Hélio da Rosa Machado

                  As lembranças sempre vem à mente. Felizes daqueles que podem traduzi-las para que outras pessoas saibam como a juventude é importante para a formação de bons homens do futuro.

                  Meu interior foi assim... E o seu?

 

 

A AVE MARIA

(Hélio da Rosa Machado)

“Era de tarde; o crepúsculo descia sobre a crista das montanhas e a natureza como que se recolhia para entoar o cântico da noite; as sombras estendiam-se pelo leito dos vales e o silêncio tornava mais solene a voz melancólica do cair das cachoeiras. Era a hora da merenda em nossa casa e pareceu-me ouvir o eco das risadas infantis de minha mana pequena! As lágrimas correram e fiz os primeiros versos da minha vida, que intitulei – “As Ave-Marias: A saudade havia sido a minha primeira musa. (Cassimiro de Abreu).

 

Depois de ler essa pequena introdução feita por Cassimiro de Abreu em 20 de agosto de 1859 (inspirado na lembrança do seu passado), retirada da obra AS PRIMAVERAS, surgiu em mim uma pequena gota de saudade que aflorou no peito.

 Mais uma lembrança de minha infância. Eu vivia feliz numa pequena cidadezinha deste Estado de Mato Grosso do Sul (quase divisa com o Paraguai). Ali plantei meus sonhos. Foi onde vi florir meus anseios de felicidade. Naquele torrão plantei esperança e tornei-me testemunho dos encantos que rodeiam a infância.  Naquelas ruas arenosas estavam os encantos de magia.

Hoje, sou um ser viajante, porque me tornei filho de outros pagos. Só mesmo a lembrança para relembrar o cheiro daquele lugar. Parece que enxergo a cor do sol que se punha no crepúsculo das tardes, tornando as nuvens bem coloridas, onde cada menino, com o seu olhar de sonho, poderia ser capaz de redesenhar todas as figuras que pudesse contornar naquele horizonte belo e inebriante.

A emoção é grande ao pensar na igrejinha simples. Mas, ao seu lado erguia-se uma obra imponente (se cotejada com a proporção do lugar). Paredes enormes insistiam em ultrapassar os limites do Céu, subindo além dos padrões das casas simples que rodeavam a Matriz. A obra ficou muitos anos esperando pela sua conclusão. Os fiéis trabalharam incansavelmente para arrecadarem fundos. Grandes quermesses abrilhantadas por leilões históricos. Os leilões eram executados por uma pessoa de minha família, ou seja, o senhor Delson Machado (meu pai). Ele sempre foi operário dos templos religiosos.  Era o melhor dos leiloeiros. De olho na melhor oferta lembrava um jogador de truco. Muitas vezes até subia na mesa do autor do último lance, fazendo desafios aos demais interessados na disputa.

 

Igreja essa onde estudei por muitos anos, servindo-me da escola Paroquial. Ali, vivi momentos de muita riqueza cultural. Lembro de pessoas de grande expressão pedagógica naquela época de poucos recursos físicos, materiais, humanos e intelectuais. Esses educadores tornaram-se gigantes para a época. Chegaram a construir um carro alegórico imitando a Apolo 11, causando grandes aplausos a todos que viam aquela réplica perfeita de uma Astronave que marcou a época de exploração do espaço

O futebol sempre foi minha paixão. Desde menino eu já era perseguidor das bolas de capotão (como eram conhecidas na época).  Doce lembrança dos ‘rachas’ de futebol no final das tardes frias de inverno, ou, nos crepúsculos de verão. A gurizada se reunia em frente à minha casa, numa rua calma - sem movimento de veículos. O gramado natural insistia em crescer abundante dando azo à imaginação da meninada. Era o nosso campo de futebol preferido.

Havia até um repórter noturno chamado Genésio, que bem cedinho, já fazia ponto na Farmácia do paraguaio Ernesto Landolfo. Ele relatava para todos que passavam tudo o que havia acontecido nas sombras da noite.  Esse comportamento sedimentava a imaginação das pessoas. Alguns o chamavam de “homem-lobisomem”. Aliás, curiosa a intensidade de pessoas com atividade mental retardada, na minha queria Amambai. Eles perambulavam livremente pela cidade.  Causavam verdadeiro pavor aos moleques que acreditavam em mitos. Naquela infância de sonhos, a meninada nem percebia que tais pessoas eram apenas fruto de folclore popular, já que nenhum deles era capaz de fazer mal a qualquer pessoa. 

Nesse contexto de pessoas incomuns cito alguns: Lídia Louca”, “Bey-Bey Pedrito; Joaquim-qüim-qüim”; “Marco Velho”; “Genésio”; “Alcides louco”. Entre eles, uma “senhora” que iniciou a vida adulta de muita gurizada.

Lembro-me das afamadas “barrocas” que se situavam bem próximas de minha casa. Estou falando de enormes erosões que se formavam ao redor de um córrego rodeado de um brejo. Era o local predileto para as disputas teatrais da molecada. Funcionava como palco para as brincadeiras de bang-bang.  A arma era um estilingue equipado com “projéteis” de frutinhas de árvore da região, conhecida como sina-mão.

Outra brincadeira da molecada era o banho nas águas do rio Panduí,  ou na represa da serraria, onde a gurizada se reunia para exibir suas destrezas nos pulos acrobatas. O banho predileto era o da represa; uma opção nova que se formou com uma modificação do curso natural do riozinho que desaguava bem próximo das serrarias do Antônio Japonês e do Antônio Delgado.  

O Antônio Delgado era um culto paraguaio que se erradicou em Amambai. Ele era professor de Inglês. Curioso esse fato, posto que se utilizava de sotaque híbrido numa mistura de castelhano com português. Num certo dia, a turma de alunos do ginásio foi flagrada com a presença repentina desse professor.  Referido mestre deparou com sonora algazarra e alaridos. Como represália, determinou que todos fossem “segurar o teto”. Isso significava que estavam de castigo e que teriam de erguer as mãos simbolizando pessoas que seguravam a estrutura superior da sala. Não cessando as gozações, o castigo ficou mais severo. Disse o professor: - Ah! Vocês non entende mais portuguêsss, então vamos hablar e tratar de inglêsss. Incontinenti anunciava: - PRÔVA...PRÔVA...PRÔVA.... Alguns alunos contestavam e diziam que não estavam preparados. Ele retrucava: - Ainda non entenderamm bien...Vou repetir notra língua:  - Somente una ol-há em cima del mecita. Vamos acer prôva...Evidente que todos nós tivemos uma dupla lição, pois além de aprendermos inglês, também aprendemos,  com vaga noção, o castelhano.

O futebol sempre esteve junto comigo.  Meu primeiro time do coração foi  “O Milionário”, uma equipe formada com jogadores da cidade, mas, de grande expressão técnica. O elenco era comandado por um paraguaio chamado Ernesto Landolf. Quando nosso time entrava em campo, soavam os altos falantes tocando a música instrumental de mesmo nome: milionário.  Tratava-se de um time vencedor.  Enfrentava em condições de igualdade grandes times do Paraguai como Serro Portenho, Olímpia etc.

                                       A cidade enternecia-se quando chegava o entardecer. Era o toque das 18:00 horas, quando os potentes alto-falantes da igreja católica soavam os acordes da “Ave-Maria”.  Essa sinfonia anunciava o início da noite. Sempre havia uma reflexão a ser lida pelo Padre da paróquia. Eram palavras confortantes que eram pronunciadas em atenção aos acontecimentos da semana. Esse momento de crença auxiliava aos enfermos, aos sofredores e às pessoas que precisavam de um alento para enfrentar as dificuldades da vida.

 

 



Imagens

Imagem que resplandesce o poder da AVE MARIA.

Comentários (1)

Enviado por: Fábio Pereira, em: 19/04/2012 11:17
A crônica acima fez recordar-me por um instante da minha infância. Lembro-me que ao menos uma vez por mês acompanhava minha vó ( Vó Chaví como era conhecida), à cidade de Corumbá, onde detalharei abaixo: Na noite de Sexta- feira dormia mais cedo que o normal, pois às 5:00 Hrs ( em ponto) de sábado levantávamos para prepararmos o café da manhã ( cafezinho, leite e escaldado) e a famosa matula que nos alimentaria durante a viagem.” Tomávamos” o ônibus circular às 06h e 30min. e chegávamos a estação ferroviária por volta das 07he 15min. . Todas as pessoas presentes ficavam na expectativa do surgimento do trem que logo apitava anunciando sua chegada. No embarque passávamos nossa bagagem pela janela para assegurar nosso lugar, pois não tinha numeração nas poltronas. O trajeto era formidável com todo o sacolejo do trem, as amizades que se formavam e a paisagem – variava entre as rochas, rio, pontes, cidades históricas e belíssimo Pantanal . O desembarque em Corumbá ocorria às 17:00 horas, logo corria para alcançar a charrete e embarcar a nossa bagagem e ajudar a “ Dona Chaví” a subir no nosso “Taxi”. Lembro que dizia ao ‘motorista’ – Iremos na Porto Carreiro com Major Gama, endereço da minha tia-avó. Resumindo: Ficava sempre na expectativa de ir a gloriosa Corumbá-MS.

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