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Quem veio do interior?


Publicada em: 12/04/2012 14:34
por: Hélio da Rosa Machado

                  Nossa Capital Morena está linda como nunca. 

                 Aprendemos a amá-la como se fosse nosso berço.

                 Entretanto, muitos de nós não somos daqui. Viemos para alcançar melhores oportunidades de vida. Aqui ficamos por opção e hoje temos a sensação de que aqui nascemos.

                  Sempre fica algum resquício de interior. Um de meus tios diz que nosso cérebro é um caderno com duzentas folhas. Tudo aquilo que escrevemos nessas páginas fica gravado em nossa memória. Só nos esquecemos das coisas que não tiveram espaço para registrar nesse caderninho da saudade.

                  Com base nessas lembranças, ouso levar aos nossos internautas um pouquinho daquilo que escrevi nesse caderno. Acho que são recordações que vão coincidir com as suas. Confira:

 

                  REMINISCÊNCIAS DO INTERIOR

                 De vez em quando tenho o hábito de acordar pensando naquele menino do interior, magricelo, pés descalços ou, esporadicamente, fazendo uso de um chinelo de dedos (tipo havaina). Andarilho solitário, em dia de chuva, perambulava pelas ruas arenosas dos tempos de minha saudosa Amambai-MS.

                 Lembro-me que o meu maior desejo era de que chovesse para que eu pudesse embrenhar-me pelas ruas lamacentas, correndo desenfreadamente pelas enxurradas, com os chinelos aos pés que, vez ou outra, ficavam atolados num torrão de areia, ou, no lodaçal das poças d’água.

                  Sentir as gotículas de chuva que caiam sobre meu corpo, causa-me sensação de intensa liberdade. Eu perdia a noção de sensatez. Corria pelas alamedas encharcadas com aquele chinelinho desgastado. Ele funcionava como uma espécie de pêndulo que fazia jorrar água suja. Ficavam as marcas da extensão da sujeira pelo meu corpo, principalmente nas costas, deixando minha camiseta completamente impregnada de lama.

                 A insensatez rendia-me homéricas repreensões quando minha mãe tomava ciência da peraltice. Era o desprendimento do um mundo exclusivamente infantil.

                 O que eu não gostava era o despertar para a realidade. Sucede que o castigo reserva-me algumas chineladas com o mesmo chinelo que havia causado o estrago na minha roupa. Tinha de tomar banho para ir para a escola, mas não antes de ficar ao lado de um tanque de lavar roupas, esfregando com insistência aquela vestimenta que insistia em manter as cores vivas do barro da rua.

                 Mas, na meninice, tudo passa como um rajar do vento. Logo eu estava limpinho e vestido com o impecável uniforme do colégio Felipe de Brum. Naquela época meus pais já me ensinavam que tinha de ter responsabilidade para com meu futuro. Exigiam que eu mesmo preparasse meus livros e os colocasse no meu embornal (uma espécie de alforje feito com panos).

                 Lá ia eu para a escola, em companhia de outros meninos e meninas vizinhas que seguiam pelo mesmo caminho. Nesse instante, a noite despontava no horizonte e o sol (lindo como sempre, naquela cidade crepúsculo) anunciava sua despedida. Mantinha um brilho tênue como se fosse uma flor naquele rebaixar do horizonte. As luzes suaves desenhavam-se no opaco da noite. Anunciava-se a negritude da escuridão. Lá ao longe já surgiam as estrelas e a lua que, bem tímida, aparecia em sentido oposto.

                   A noite chegava imponente e assustadora. Não se via uma só pedrinha em nosso caminho. De repente, ouvia-se o ronco de um motor (que se repetia sempre naquela hora da noite). Em questão de minutos apareciam as luzes da cidade. Era hora de apressar o passo para chegar no horário à sala de aula. Tinha de aproveitar ao máximo essas horas de claridade, porque, o tal de motor da Prefeitura Municipal, não era daqueles mais eficientes. A qualquer momento poderiam ocorrer rateados que pareciam gritos de agonia, fazendo cessar o privilégio das luzes.

                   Esses percalços me levavam a tirar do bolsinho do meu embornal uma das velinhas que já tinha sido gasta, pela metade, em outra hora de mesmo infortúnio. Eu a acendia. Deixava escorrer a cera na madeira áspera da minha carteira escolar. Ali ela ficava. Somava-se às demais velinhas dos outros alunos para que todos nós pudéssemos ter seqüência da aula.

                   Passaram-se alguns anos e ficaram as marcas de nosso sacrifício em nossas carteiras de estudo. Elas ficaram revestidas de uma massa amarelada que tinha sido impregnada com o tempo. Essas manchas anunciavam nossos momentos de sacrifícios.

                 A história de minha cidade natal não é diferente de muitas outras que também tiveram de passar por momentos de extremo sacrifício da população para poder alcançar o progresso e ingressar numa era de bem-estar para todos.

                 O que importa neste momento, é que, tanto Amambai, como eu, crescemos juntos e hoje eu tenho minha própria luz. Aquela cidade interiorana está mais iluminada que antes, graças ao progresso. Com todos esses obstáculos aprendi a construir os sonhos e a torná-los minha realidade.



Imagens

Saudosa Amambai-MS.

Comentários (2)

Enviado por: José Robson, em: 12/04/2012 19:11
'Tá saudoso, né, "amambaiano"!. Sabia que quem nasce em Amambai é amambaiense, mas quem, lá não nascendo, tomou banho e pegou frieira no Rio Panduy, é "amambaiano? Pois é: somos dois "amambaianos" saudosos das coceirinhas das águas do Panduy! Post scriptum: quando trabalhava no Fórum em Amambai, não foi nem uma nem duas vezes que atuei - como escrivão - em audiências ao "som" de lampião a gás! Digo "ao som" porque, para quem conhece o apetrecho, eta barulhinho irritante - e o trem tinha de ficar mais perto do meu ouvido por conta de que eu era quem datilografava a oitiva das partes, testemunhas e despacho ou decisões proferidas no ato!

Enviado por: Fábio Pereira, em: 13/04/2012 10:13
Tive a honra e o privilégio de conhecer e ficar amigo de alguns membros da família Ottaño da Rosa - que sempre honraram Amambai-MS.

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